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Sobre mandos e desmandos dentro das igrejas evangélicas...
Meu filho Ítalo, primogênito que hoje inclusive é pastor-auxiliar na IBRAV, onde pastoreamos, e ordenado pela CBN-SP, costumava me acompanhar às aulas no STBN-ET. Lembro-me de uma ocasião onde estávamos na sala dos professores e um ex-aluno entrou para conversar comigo, de repente começou a relatar uma situação onde entendia haver uma situação de desacato por parte de uma mulher que era membro da igreja para com ele.
Então ele disse: “a irmã cale a boca ou eu lhe mando um (mencionou um artigo ou código da igreja que não me lembro mais, um número) agora”! Depois, em particular, meu filho me perguntou -pai, o que foi aquilo? Com muito cuidado expliquei a ele que certas igrejas têm isso como regra de disciplina, até chamam de "doutrina da igreja".
Óbvio que ele ficou chocado com a atitude do abençoado irmão que era candidato a pastor na época; é a chamada "carteirada", tão comum em nosso país, onde é comum ouvir: “sabe com quem você está falando”? "Aqui é o desembargador fulano de tal, o juiz fulano de tal!"; ("aqui é o coronel Data Pitanga”, como diria Jorge Amado em seu romance Tieta do Agreste ou Dias Gomes no inimitável Bem Amado).
Sim, o coronelismo que manda e desmanda no Brasil até nossos dias, principalmente nos rincões desprovidos de educação e cultura no norte-nordeste. "O coroné conseguiu água para gente", diria alguém (um caminhão-pipa qualquer de vez em quando, mas não o investimento em irrigação que resolveria o problema para sempre). E o povo se submete. Vendem seus votos em troca de cesta básica ou outro mimo qualquer e assim famílias dominam cidades e territórios (citando novamente um clássico popular brasileiro de Dias Gomes –a novela O Bem Amado, onde as famílias “Cajazeira, Paraguassú e Medrado” mandavam e desmandavam na cidade (Sucupira)). Hoje seriam os Melos, Magalhães, os Calheiros, e por ai afora, coronéis do nordeste que dominam há décadas.
Infelizmente, de alguma forma, tornou-se algo mais ou menos "compreensível" ou "aceitável". Porém, essa prática há muito é observada dentro das igrejas evangélicas, principalmente pentecostais e neopentecostais. A "vigilância" aos membros da igreja e cercos abusivos têm sido cometidos até pela ignorância e conivência dos fiéis, muitos humildes e com baixo nível cultural e educacional, e por diversos fatores – interesse em poder, em prosperidade, lucro fácil, ou até mesmo para se tornar "amigo do amigo do grande líder", submetem-se a isso.
Gostaria de pontuar algumas situações, exemplos:
Irmã, quem deu ordem para a senhora cortar seu cabelo? Será disciplinada!;
Irmão, eu o vi no boteco com uma garrafa de cerveja no balcão (não adianta explicar que ele estava bebendo uma Fanta e a cerveja era do colega de trabalho); é a tal "aparência do mal";
Aqueles irmãos (acho que tarados) que ficam nas igrejas medindo o comprimento da saia das irmãs;
Não fale mal do seu pastor, ele é "ungido do Senhor", (mesmo que esteja roubando a igreja, em adultério (virtual ou físico), ou mesmo que fale de qualquer maneira, destratando as ovelhas e a liderança). Não fale mal pois é ungido! Nunca vi isso nas Escrituras Sagradas, a não ser reis, estes sim eram ungidos (com óleo, óbvio -se é unção, é óleo);
Hoje em dia temos os "caça fantasmas" nas redes sociais, gente que fica na internet bisbilhotando a vida dos membros da igreja em que congrega pra ver onde estão e depois vem dizer: –pastor, irmão fulano estava no bloquinho; -pastor, irmão fulano estava no Teatro; -pastor, irmão fulano de tal tirou uma foto com um copo com cerveja nas mãos". São os "legalistas de plantão e santos do pau-oco", vigilantes da conduta alheia ou, com todo respeito à terceira pessoa na Trindade, assistentes do Espírito Santo.
Infelizmente trago algumas marcas negativas em meu ministério em razão de medíocres que por tempos valorizei em excesso por julgar que suas intenções eram as melhores possíveis -porém, o tempo e as atitudes mostraram totalmente o oposto. Gente que, sobretudo com o advento das redes sociais, tomou o lugar de juízes e fiscais da igreja, fuçando Facebook e Instagram à busca de coisas como uma menina da igreja que, dançando e se divertindo numa festinha de casamento, se participasse de algum ministério interno na igreja, deveria ser afastada imediatamente (segundo eles) -"pastor, fulana estava dançando na festinha, não pode dar aulas para as crianças hoje, é mau exemplo”.
Como citei anteriormente, são santos do pau-oco! Chego a pensar até que alguns tivessem esse procedimento talvez para encobrir mazelas interiores (coisas feitas às escondidas). Um deles, por exemplo, enquanto tinha um esconderijo de bebidas destiladas em sua casa, fiscalizava membros da igreja que entravam com copos d'água no templo ou que às vezes subiam para a galeria do auditório, local onde se sentiam melhor para participarem da celebração. Enfático, dizia: - "Não pode entrar com copo no templo, não pode ficar na galeria! Serão punidos". Gente que vinha com frases como: "pastor, põe 'de banco' (para mim, hoje, um conceito deplorável) porque está em disciplina!".
Somente depois de algum tempo percebi que pessoas dentro da igreja assediavam e abusavam de outros membros, valendo-se do artifício de serem mais espirituais que os outros (ou porque se enxergavam assim mesmo). E isto já foi tarde demais, pois o legalismo barato já havia contaminado até muita gente boa em nossa comunidade que não soube discernir o certo do errado na época. Pessoas que foram enganadas e iludidas, outros que acompanharam as mazelas e julgamentos destes assediadores e abusadores apenas por companheirismo.
Elenco algumas frases que machucaram meus ouvidos durante a jornada ministerial de décadas, e talvez você já tenha escutado de alguém, então sabe que machucam mais ainda o coração de um pastor:
"Eu não toco ou canto na equipe do louvor com esse cara, não sei como está a vida espiritual dele”;
"Não quero minha filha com essas meninas", ouvi de uma irmã se referindo a algumas garotas da igreja que brincavam em uma festinha de casamento;
"Essa gente não faz falta", disse alguém se referindo à liderança da igreja após ter se desligado da mesma;
"Meu filho e minha filha não frequentam essa classe de EBD se esse(a) professor(a) for dar aula. Ele(a) não é digno(a) de estar ali";
"O altar é Sagrado...". Claro, altar para esses legalistas é a construção em alvenaria ou madeira que em algumas igrejas sustentam as cadeiras dos "marajás", os mandões da comuindade que, como fossem santos e ungidos, ficam lá de cima olhando para reses pecadores comuns assentados nos bancos –uma plateia a quem chamam rebanho (em alguns casos seria melhor dizer "gado");
"Você não é de oração! Não sobe ao monte, não jejua, não participa das reuniões de oração, não fala línguas estranhas...".
Tudo isso revela uma espécie de assédio, a desmoralização que às vezes um líder dentro da igreja, ou a liderança da comunidade de fé, faz na frente dos demais. Essa é a realidade de muitos ministérios em nossos dias! Idolatram espaços ou lugares e, de várias formas, assediam os que não concordam com sua posição.
Lembro de um irmão que olhava uns adolescentes louvando com toda a alegria no tal "altar". O olhar dele, no entanto, era de condenação por conta da vestimenta deles (jovens que usavam bermudas e bonés, nada escandaloso). Sei o que ele pensava: "lá é santo, não é lugar de bermuda.... vamos discipliná-los, não podem mais cantar assim!".
São de conhecimento público casos de pastores que usam sua posição para práticas abusivas e imorais, como "dar em cima" de mulheres (e hoje vale o vice-versa, com mulheres dando em cima de homens). E há muitos incautos e ignorantes que acabam se tornando vítimas frágeis, casos onde gente foi convencida a práticas como fazer sexo porque "deus havia revelado" isto (em minúsculo mesmo, porque o Deus da bíblia certamente não é esse aí não). Algumas igrejas chegam ao absurdo de terem "culto da disciplina", onde os supostos erros dos membros são expostos e ali julgados por meia dúzia de "anciãos ungidos", algo comparável ao tribunal do crime.
Muitas pessoas que saíram da igreja onde estou como pastor, diziam: “pastor, quero sair com sua benção”! Não precisa nem falar que quem abençoa ou deixa de abençoar é o Sumo Pastor, Jesus! Eu, ministro local, posso "referenciar" o então membro a outro ministério ou igreja, não amaldiçoar. Já pensou, pastor rogando praga em dissidentes? (apesar de, e lembro disso com tristeza, ouvir alguns elementos fazerem comentários do tipo: "fulano(a) morreu tragicamente porque mexeu comigo! Deus pesou a mão! Olha, não saia de qualquer jeito, não, porque Deus pesa a mão").
A própria “revelação” entregue por essas lideranças ou pseudos profetas é em si uma situação de abuso, de assédio. Coisas como "Deus está mandando fazer isso, não cortar cabelo, dar dinheiro, se submeter ao jugo da liderança, mulher tem que usar saia e/ou não pode se arrumar..." fico imaginando como ficariam essas situações de anos atrás em nossos dias onde a moda das tatuagens pegou, invadiu tantos lugares e dificilmente vemos alguém sem uma marcação tintada no corpo. Vai todo mundo para o inferno? Legalistas abusivos de um passado recente sentenciaram isto há muitos em igrejas por aí!
Imagino nesse tempo em que vivemos o julgamento e a pressão que alcançam pessoas que não se submetem à vontade destas lideranças. Em muitos casos, a feitiçaria gospel é lançada em cima deles, maldição e peso divino sem dó, principalmente sobre a juventude! Pena que percebemos tarde às vezes. Eu mesmo, que denunciei tantas atrocidades de igrejinhas de porta, não percebi que em meu quintal existia assédio e abuso -preço da imaturidade e ingenuidade em acreditar que todos possuem uma visão de Reino.
Triste realidade! São esses os que pensam em seus próprios ventres, tipo abutres à procura de carniça, ou como diz São Judas em sua cartinha no Novo Testamento: "esses fazem escândalos nos vossos lagos. Banqueteiam-se convosco despudoradamente e se saciam a si mesmos. São nuvens sem água, que os ventos levam! Árvores de fim de outono, sem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas!. Ondas furiosas do mar, que arrojam as espumas da sua torpeza! Estrelas errantes, para as quais está reservada a escuridão das trevas para toda a eternidade". (Jd. 01:12 e 13).
Sei de trabalhos com casais, por exemplo, onde particularidades e vida íntima foram expostas (ao grupo ou a líderes), deixando pessoas vulneráveis. Ministérios desenvolvidos baseados em americanismos ou outras fórmulas prontas que trabalham à base de abuso e manipulação, deixando uns "nas mãos" de outros, estranhos.
Demandas ou pedidos de oração em situações particulares, que foram expostas em reuniões pequenas a um grupo específico. Porém com o azar de ter em seu meio pessoas com essa índole julgadora e acusadora. São muitas situações ao longo dos anos de ministério, relatos que deixariam o texto ainda mais longo, coisas que nada tem a ver com Cristo, bíblia ou oração.
Então, sem cair no mesmo erro (pré-julgamento), os abusadores e assediadores estão à solta por aí, não cabe a nós julgá-los, mas sim denunciá-los e citá-los, ao menos. O cristão em geral é meio preguiçoso para estudar e compreender a Palavra, quer o imediatismo, respostas e resultados que estufem seus buchos "espirituais". Por isso estão aí as revelações, profetadas, promessas falsas... e que não deixam de ser formas de assédio. São Paulo diz: “quem está em pé, cuide que não caia”. As balelas e conversas mansas acabam enganando muitos. Como relatei anteriormente, sem perceber acabei tolerando e até sendo conivente com situações que, hoje percebo e reconheço, eram abusivas e sem qualquer tipo de propósito cristão. O preço e a conta chegam, infelizmente negativas.
Hoje muitos pastores ainda utilizam métodos para inibir suas ovelhas, e às vezes até são pastores ou líderes legais, mas que caem nessa tática maligna por soberba, ganância ou outros pontos particulares –fama, conceito próprio, etc. Arrependo-me, mas feridas mal curadas não fecham mais! O que te escandaliza? Coma de tudo que se vende no açougue, tenha piedade do homem insensato.
Pr. Omar Bianchi,
é pastor sênior na Igreja Batista Renovada Água da Vida (IBRAV Tremembé), em São Paulo/SP, Vice-Diretor do STBN-ET (Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini) e da ABN (Associação Batista Nacional) GuaruNorte.